Desde 2018, projeto já alcançou cerca de 120 mil mulheres e se consolida como rede de escuta, informação e reconstrução diante da persistência da violência de gênero no Brasil
Chegar aos oito anos de existência do Café das Marias aperta o peito. Há orgulho em olhar para trás e perceber que, desde 2018, o projeto tem sido espaço de acolhimento, escuta e reconstrução para cerca de 120 mil mulheres. Mas existe também o peso de entender que o Brasil obriga a permanência urgente desse trabalho, porque a violência contra meninas e mulheres continua batendo à porta diariamente.
Celebrar essa data é, portanto, um gesto de resistência e também de lamento. A co-fundadora Tina Costa resume essa contradição com franqueza: “Significa que ainda somos necessárias, que temos muito trabalho pela frente, pois oito anos depois, os números da violência contra a mulher continuam crescendo”, destaca.
Criado a partir da inquietação diante dos ciclos de violência doméstica e relacionamentos abusivos, o Café das Marias nasceu com o propósito de oferecer acolhimento humanizado, informação acessível e respeito ao tempo individual de cada mulher. Ao longo dos anos, se consolidou como uma rede de apoio voltada à prevenção da violência, sob o olhar de que romper um ciclo de abuso exige escuta, cuidado e reconstrução.
Os números mais recentes mostram que a violência não apenas continua desde o início do projeto, como avança. Dados do Sinesp revelam que, entre janeiro e março de 2026, 399 mulheres foram vítimas de feminicídio no Brasil. É o primeiro trimestre mais letal desde o início do monitoramento oficial, em 2015, com um aumento de 7,55% em relação ao mesmo período do ano passado.
Em 2025, o país já havia registrado o pior índice anual de sua história: 1.470 mulheres mortas por questões de gênero e mais de 1 milhão de pedidos de ajuda feitos ao Ligue 180. Em 2026, os números continuam em alta, reforçando o cenário que deu origem e que dá continuidade ao trabalho da iniciativa.
Entre a dor e a coragem, nasceram as Marias
É também nesse contexto de permanência da violência e busca por ruptura que a história do Café das Marias se conecta simbolicamente a outras narrativas de resistência feminina. há um retrato sensível da força e da resiliência de mulheres que, mesmo diante das adversidades, seguem em frente.
Assim como na canção, a história do projeto também nasce de mulheres que aprenderam a sobreviver às próprias dores sem permitir que elas definissem seus caminhos. Nesse percurso, a trajetória das fundadoras revela que a revolta pode assumir direções diferentes. Em alguns casos, ela paralisa, enquanto, em outros, ela move. No Café das Marias, essa revolta motivou a mudança.
Foi assim que surgiu a urgência de olhar para mulheres em situação de violência, de reconhecer as lacunas no acesso à informação e de pensar em uma rede capaz de traduzir o que muitas vezes estava fragmentado, burocrático, distante ou silenciado.
Para Tina Costa, essa virada começou quando a própria realidade deixou de ser naturalizada. O incômodo, antes íntimo, se ampliou ao olhar para outras mulheres ao redor. “A indignação que senti ao compreender o quão manipulada e inserida no sistema eu vivia, ao ponto de normalizar relacionamentos não saudáveis para mim e outras pessoas. Quando me libertei, passei a desejar e trabalhar para que outras mulheres também o pudessem”, relembra a fundadora.
Esse processo de reflexão ganhou forma coletiva no final de 2017, durante uma dinâmica de planejamento na ONG Ministério das Escadas. Foi nesse encontro que Thais Neves e Michele Esteves, fundadoras do café trouxeram a urgência de olhar com mais atenção para mulheres que viviam em contextos de relacionamentos abusivos
Nesse período de construção inicial, Tina vivenciou ainda experiências que ajudaram a consolidar o entendimento sobre o que significava, na prática, acolher. As histórias das chamadas “Marias originais”, mulheres que já atuavam como voluntárias e palestrantes e que compartilhavam trajetórias marcadas pela superação de relações abusivas, foram decisivas nesse processo. Para ela, ver essas mulheres recomeçando e ocupando espaços de fala reforçou a potência da transformação coletiva.
Quem são as mulheres atendidas?
Quando chegam ao Café, a dor dessas mulheres é urgente. Elas buscam desde apoio psicológico para si e para os filhos, até orientação jurídica para guarda de bens e mentoria para alcançar o que muitas vezes é a única chave para a liberdade: a autonomia financeira.
Mas a ponte de acolhimento do Café das Marias entendeu cedo que secar o chão não basta enquanto a torneira continua aberta. Para interromper o ciclo de forma definitiva, é preciso olhar para quem causa a ferida. “Olhar para o ser humano com misericórdia é uma premissa por conta dos nossos valores. E se trata de inteligência estratégica para buscar solucionar a raiz do problema e não apenas o sintoma”, explica Tina.
Como o Café das Marias atua
Hoje, o projeto atua a partir da escuta, da informação e do acolhimento. Conduzido por uma rede de voluntários, o Café das Marias promove ações presenciais e digitais de prevenção à violência, por meio de palestras, workshops e rodas de conversa voltadas a diferentes públicos, incluindo adolescentes.
Em cada encontro, o objetivo é criar espaços seguros onde mulheres possam fortalecer a autoestima, desenvolver o autoconhecimento e acessar informações sobre direitos e caminhos possíveis para romper ciclos de violência.






Para Sabrina Aquino, voluntária do projeto, fazer parte dessa rede significa também participar da transformação da vida de outras mulheres. “Pra mim é muito especial fazer parte disso. É uma forma de ajudar outra mulher, mesmo sem conhecê-la. Acho que levar informação é uma grande ajuda e pode impactar na vida das pessoas”, conta.
Ao refletir sobre sua trajetória dentro do Café das Marias, Sabrina diz que o que mais a marca é perceber como o acolhimento e a informação podem impedir que ciclos de violência avancem. “No fim das contas é isso o que me marca como voluntária. É poder ajudar mulheres que eu provavelmente nunca conheceria na vida. Ajudar a sair de um relacionamento que faz mal a ela ou prevenir que algo pior aconteça através da informação e acolhimento”, reflete.
Expansão e impacto social
É essa visão panorâmica da violência que permitiu ao projeto romper fronteiras ao longo de oito anos. A iniciativa transformou-se em curso de extensão universitária e assumiu a linha de frente na capacitação de agentes sociais em territórios periféricos, lugares que sofrem calados com a epidemia da agressão e onde o projeto é legitimado por instituições como a Delegacia Regional de Ensino de São Paulo e a Faculdade Sírio-Libanês.
Nas salas e rodas de conversa promovidas pelo projeto, o milagre que se busca não é grandioso, mas íntimo e definitivo. Nas palavras da fundadora, a maior transformação que se pode presenciar é “o despertar genuíno sobre o merecimento”. É o exato segundo em que uma mulher entende que a culpa não é dela, e que ela merece, finalmente, a paz de uma relação saudável.
Próximos passos
Depois de oito anos de atuação, o Café das Marias volta seu olhar para o futuro com a intenção de ampliar o alcance do trabalho já realizado. Para Tina, o próximo passo é fortalecer a equipe de palestrantes e acolhimento que já atua na iniciativa, ao mesmo tempo em que novas pessoas serão formadas para expandir as ações em escolas, organizações sociais e diferentes territórios.
A proposta é que o trabalho chegue a mais espaços de convivência e formação, especialmente aqueles onde a prevenção pode atuar de forma mais direta, antes que os ciclos de violência se consolidem. Mais do que crescer em números, o foco está em qualificar a rede e ampliar as ações de conscientização e escuta.
No futuro, Tina também aponta ainda um objetivo maior que orienta toda a trajetória do projeto: tornar o projeto uma referência nacional na prevenção da violência contra meninas e mulheres. Essa meta se conecta a uma transformação mais ampla, que envolve a sociedade.
Para a co-fundadora, enfrentar a violência exige a construção de uma contracultura baseada em constância e presença. “É necessário implementar e insistir na contracultura da violência, investindo em ações constantes de conscientização e humanização, fortalecimento da identidade de meninas e meninos, com base em valores como amor, respeito e solidariedade”, explica.
Nesse processo, o projeto também se mantém sustentado por uma rede de apoio que possibilita a continuidade das atividades. Quem deseja contribuir com a manutenção das ações pode apoiar o Café das Marias por meio de doação via PIX: ongescadas@ministeriodasescadas.com.br.
Por: Gabriella Serrano e Laís Queiroz | Revisão: Lúcia Lima